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Um Disco, Um Risco servido à mesa

  • Foto do escritor: Guilherme Arantes
    Guilherme Arantes
  • 11 de jun.
  • 2 min de leitura

estamos para lançar o disco novo em breve .

enquanto eu estive fazendo o disco, eu fui infinitamente feliz .

infinitamente mais feliz do que em muitas outras épocas, especialmente em relação à "fábrica de salsicha" que é a outra parte da vida, chamada genericamente de "realidade".

amo mesmo os meses de delirante devaneio : e quanto mais tempo isso durasse, melhor seria.

viver e criar.

viver para criar.

devia ser só isso .

Poder fazer poemas, dedilhar o piano a esmo, sentir nascerem fragmentos e rabiscos, compor melodias, harmonias, escrever as letras, tocar os instrumentos, cantar, escrever arranjos, gravar, um processo artesanal de fermentação, decantação, refino e envelhecimento em tonéis de angustia e de prazer intercalados, que durou, por baixo, perto de três anos da minha vida, principalmente devotados a sonhar .

mas tudo tem um limite, e o limite, mais uma vez eu lembro, se chama "realidade".

a realidade de que as músicas são feitas pensando em pessoas, e pessoas são complicadas, pessoas são outra história, são outras histórias, todas com suas prioridades e paladares divergentes.

é fascinante ?

mortalmente fascinante.

sempre um risco quando servido à mesa do mundo.

mas adoramos correr riscos... ter medo não é uma opção !

a música deveria ser apenas feita pela e para a primeira parte do processo, a parte delicada e inocente.

porque a segunda metade é uma temeridade, não depende mais de nós , e só o sonho é confiável , a "realidade" é fugidia e volátil .

quantas vezes nesta vida eu vivi momentos assim.

dezenas de vezes, dezenas de discos, centenas de músicas, cincoenta anos, meio século delirante, por baixo meio milhar de vezes eu sonhei que agradava às pessoas, e hoje eu vejo que não posso reclamar: o mundo gosta de mim.

na média, é verdade, mas no geral, o mundo foi bom e generoso para comigo ...

é verdade que ... os roqueiros me acham romantico demais, eruditos me acham empírico demais, romanticos me acham vanguarda demais, o povo pop me acha MPB demais, MPBzistas me acham roqueiro demais, chiques me acham um pouquinho cafona demais, mas de um modo geral... não é só o povo, o povão, o povão mesmo, que vai com a minha cara , entre sertanejos, forrozeiros, pagodeiros, sambistas, bossanovistas, tropicalistas e pós modernos, e até rappers , DJs, entertainers e hypados, progressivos, futuristas e saudosistas, caramba, perfís tão diversos ...que tem de tudo na minha paleta de público.

então eu tenho o direito ...

e até a obrigação de sonhar !

vai sair um discão !

e eu estou botando fé ( e não é só"mais uma vez" ) acho que muita gente de todas as tribos vai gostar, por mais que ( sempre ) tenha quem torça o nariz !

adoro a variedade !

adoro correr esses riscos da realidade ...

mas toda pessoa que é cozinheira fica aflita, olhando da janelinha da copa, pra saber se o jantar está agradando !

 
 
 

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