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O Busão do Guilherme

  • Foto do escritor: Guilherme Arantes
    Guilherme Arantes
  • 11 de jun.
  • 3 min de leitura

Eu vivi a minha vida pegando o mesmo busão as 4 da manha. CMTC. Largo da Concórdia. Não fui criado para burguês. Nunca ganhei carro, não tive calça Levis.

Calça de tergal e Camisa Volta ao Mundo, japona de lã da 25 de Março, se quer saber.

Enfrentei toda a truculência de uma família que não aceitava filho "artista-vagabundo"...

Meu pai, meu maior exemplo na vida, se formou médico em 1º Lugar na Pinheiros, com um esforço descomunal, dando aulas em cursinhos pra comprar os livros de Medicina...

Quantas vezes eu vi meu pai sofrendo, em casa, e até chorando por causa de paciente mendigo e ladrão, que ele, Cirurgião, operava nos plantões do Hospital Municipal...

Papai...quando criança, Dr. Gelson Arantes Lima teve até que entregar marmita e engraxar sapatos quando minha avó ficou viuva com 4 filhos para criar, em uma condição de muitas dificuldades.


Eu sei a minha origem.

Cromossomos de luta e de vergonha-na-cara.

Minha mãe pegava o bonde pra ir trabalhar como Bibliotecária na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo.


Fui criado na régua mais severa, estudei em Escolas Estaduais, no Alberto Conte, no Vocacional do Brooklyn e no Roosevelt, da Liberdade... não tive carro, lutei contra tudo e contra todos, sentei no humilde banco dos calouros das gravadoras, me recusei a cantar em inglês, ouvi um monte de "groselha" para ser cantor de auditório no Silvio Santos, fiz o Show de Calouros usando um terno de veludo azul da Ducal e sapato Vulcabrás, uma gravata borboleta que eu mesmo fiz, e até a notinha de prata que eu uso até hoje, e que eu mesmo fiz porque sou artesão com genética labrega ...Basta conferir o meu vídeo de Meu Mundo e Nada Mais...


Enfrentei o Pedro de Lara, o Zé Fernandes e a Aracy de Almeida, enfrentei a guilhotina do Flavio Cavalcanti, enfrentei o Censor José Vieira Madeira, e a tal Dona Solange, cara a cara, pra liberar o carimbo de execução pública... toquei no Barros de Alencar, no Bolinha, no Alfredo Borba, no Darcio Campos, no Ayrton e Lolita Rodrigues, na Hebe, no Raul Gil, no Chacrinha, nos auditórios... por total amor ao povo simples brasileiro, não fui mimado-abençoado  de elite-oligarquia cultural, não tive pai me incentivando, e nem poetas pra me darem colo. Eu sou o operário da MPB que ralou e comeu o pão que o diabo amassou quando a Censura e o AI5 desceram a lenha e acabaram com os Festivais e musicais na TV.

Fui chamado de brega e cafona, fui sacaneado décadas a fio pela Inteligentzia lacradora... porque não nasci carioca, e não pertenci a movimentos nem patotas pra me protegerem.

Fui eu, fomos nós, caipiras e provincianos, latino-americanos sem dinheiro no banco, sem parentes importantes, e vindos do interior, que  inventamos o Brasil depois do dilúvio e da Era Glacial do AI-5 que expulsou e tentou calar os nossos ídolos no Exílio, fomos nós que pegamos o rabo-de-foguete .Toquei por amor, sem cachet, com Jorge Mautner, TomZé, Walter Franco.

Carreguei muito órgão, piano elétrico e amplificador, estourei minha coluna.

Tive que me inventar da estaca zero. Quando lancei minha primeira música, eu trabalhava na Secretaria de Bem Estar Social, concursado por exame para estagiário, ganhando salário mínimo, consertando encanamento de creches lotadas de bebês pobres,  em Itaquera, São Miguel e Guaianases.

Comprei, finalmente, o meu fusquinha só em 76, há exatos 50 anos atrás, com o meus primeiros parcos dinheirinhos da SICAM, que eu ia buscar no Largo do Paissandu...

Mas a minha vida sempre foi assim mesmo...

Continuo do mesmo jeito. A gente se vira nos 30. Desenhista, marceneiro, afinador, lustrador, eletricista, pedreiro, cozinheiro, pra correnteza não levar a imaginação é fértil.

Eu sou o Guilherme Arantes do povão, do Prato-Feito , do Largo Treze, da Santa Ifigênia,

E vou ser sempre com cabeça erguida.

Você não sabe nada sobre mim.

Limpe a sua boca antes de vomitar seus equívocos se achando superior.

Não preciso do seu perdão porque se há uma coisa que eu não carrego é culpa social .

Eu sou o Brasil.

O de verdade, não o de mentirinha!

Abraço fraterno.

 
 
 

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3 comentários

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Marcelo Sales
09 de jul.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

O ano era 1982 e ao som de ¨O Melhor Vai Começar¨despertou minha primeira paixão de adolescente. Eu quero o Sol ao despertar brincando com a brisa, frequenta minhas melhores lembranças da época. Muito, muito obrigado por isso! Agora, sobre sua carreira e trajetória, jamais presenciei vc se envolvendo em campanhas de artistas que pouco se importam com a causa do momento e sim o quanto lhe renderia monetariamente. Planeta água sim, foi de coração e alma. A rapeize tão preocupados com Amazônia (hipócritas) não conseguiram te sequestrar pq vc sempre teve postura e princípios honestos e não cedeu. Sua história andou de mãos dadas com a minha e por isso minha admiração por seu trabalho e talento são enorme.…


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Luis Anjos
08 de jul.
Avaliado com 4 de 5 estrelas.

Gosto muito da suas músicas mas conheço pouco a sua história, histórias como essa que acabou de publicar. A gente que está longe desse meio não sabe muito o que acontece, exceto quando alguém compartilha alguma coisa.

Abraços e continue nos presenteando com sua arte.

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Convidado:
01 de jul.

Amo ler seus textos! Conheço muito seu estilo. Sempre comprei seus discos e ao ouvir uma música - falei: essa letra não é do Guilherme - e BINGO ! não era mesmo. Uma das raras canções que não era de sua autoria. Fã sabe - fã conhece - fã gosta de lado B.

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