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O dia em que Glauber cagou para mim...

  • Foto do escritor: Guilherme Arantes
    Guilherme Arantes
  • 7 de dez. de 2017
  • 2 min de leitura

Um dia, lá no (nem tão ) longínquo ano de 1978, eu estava numa mesa do ( até hoje lendário ) Fiorentina do Leme, já trabalhando o disco A Cara e a Coragem pela Warner de Midani, e ví de relance que numa mesa próxima estava o sempre falante e carismático Glauber Rocha...

Empolgado com o magistral diretor, fui lá cumprimentá-lo como mero fã tietão...Dizendo que eu adorava ele, etc.. que bobo ! Ele perguntou (assim genericamente, falando alto para todos ouvirem, como era bem o seu estilo ) quem eu era, para, assim sem mais nem menos, dirigir a palavra a ele..."Quem é esse bosta que me dirige a palavra ? "

Orgulhoso com minha canção "Amanhã" , que naquela época fazia a trilha da genial novela "Dancin´Days", respondí que eu era o compositor Guilherme Arantes...

Pessoas que estavam com ele falaram da novela, etc.. constrangidas com a indelicadeza do "gênio" ..., mas não adiantou ... Glauber cravou impiedoso : "Caguei pra você, pra mim você não é ninguém..."

Ora, quem havia me perguntado "quem eu era" foi êle, que , nobiliárquico, exigiu "credenciais" para que lhe dirigissem a palavra...

Que lindo !

Um episódio tão marcante...inesquecivelmente característico.

Com o tempo, aprendí que esse comportamento sempre foi recorrente entre os endeusados, quando interiorizam, assimilam à sua "persona" o próprio mito...

Sei que é ridículo, mas ví muito disso, não foi uma, nem duas, foram várias vezes que figuras similares agiram assim, em episódios lamentáveis e gratuitos, e nem só comigo, isso acontece toda hora, com todo mundo, uma atitude que hoje eu sei classificar como "auto-flagelo em público", é uma auto-desconstrução proposital, pra se tornar figurinha polêmica : faz parte daquele show...

Precisavam disso ? Acho que sim, pois são personagens, e acreditam numa dissociação entre o mito e a pessoa. No fundo, a escrotidão acaba funcionando como adjutória à consolidação do mito...

às vezes a obra nem é tão genial assim, tão seminal, tão acachapante... mas a polêmica o mundo adora !

No fundo, isso também ajuda a figura a se auto-destruir no ressentimento.

E há várias modalidades de auto-destruição, com as quais os mitos auto-construídos podem se deleitar e afundar em seus potes até aqui de mágoa !

O mundo, que é perverso, só saboreia.

Hoje, quase 40 anos depois, ainda acho ele genial, e aquela atitude ainda acho naturalíssima. Viva o cineasta !

Não era isso que ele queria ?

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/12/1941254-terra-em-transe-faz-50-anos-e-levanta-reflexoes-sobre-a-atualidade-do-roteiro.shtml

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