Choses de La Vie
- Guilherme Arantes
- 11 de jun.
- 3 min de leitura
Em 1971 eu perambulava por São Paulo e ia, sem parar, compulsivamente, ao cinema. Ficar em casa, sendo escorraçado como "vagabundo e inútil", era muito desagradável ... Estudar, que era bom, nada ... nisso, o papai tinha razão ... eu era muito dispersivo e tirava notas horrorosas, uma vergonha total... mas que fazer ? Se eu vivia para sonhar ...?
Muitos filmes incríveis marcaram essa época, aliás riquíssima em cultura e contracultura... nessas tardes e noites solitárias, em salas de exibição muitas vezes vazias, onde eu assistia a sessões seguidas, minha vida seria transformada por grandes cineastas, roteiros e elencos estelares... Morte em Veneza, O Acossado, 2001 Odisseia no Espaço, Satyricon, Laranja Mecanica, O Poderoso Chefão, Taxi Driver, Apocalypse Now, Papillon, O Exorcista, Ensina-me a viver, Butch Cassidy, A Noite dos Desesperados, Rocky, Encurralado, Contatos Imediatos, Love Story, Em Algum Lugar do Passado, Desejo de Matar, O Dia do Chacal, O Expresso da Meia Noite, Estranho no Ninho, A Primeira Noite de um Homem, A Bela da Tarde, Sob o Dominio do Medo, a lista é interminável ... até a reprise de West Side Story foi muito marcante pra mim ... e me descobri chorando num cinema vazio, isso foi tudo de bom, eu diria que esse, lá no fundo da memória, sou eu !
Mas, de tudo o que eu pude assistir, nessa fase decisiva da minha individuação solitária, algo permaneceu para sempre, que foi eu descobrir a minha profunda singularidade, minha natureza delirante em relação ao afeto, ao amor, e eu, aos 72 anos reafirmo a minha essencia 100% romântica, os cromossomos dominantes da Poesia...
Pra voces terem uma idéia, alguns anos antes, em 1968, em plena psicodelia pós-Woodstock, em 68, um ano que mudou o mundo, o filme Romeu e Julieta de Zefirelli, com Leonard Whiting e Olivia Hussey e música de Nino Rota, foi o primeiro sinal de que eu seria mesmo um "bardo", me auto-intitulava "Sir Michel de Trotteville", com direito a cabelo alisado com touca de meia de nylon, corte chanel e tudo o mais...
Não à toa, na escola eu seria apelidado de Guigui, e isso teria gravíssimas consequencias futuras, com a delinquencia culminando na minha expulsão do Colégio !!! Pode ?
Hahahaha !
Já nos 70, eu estava inserido na ContraCultura, no auge do Rock, mas não dava muita bola pra essas convenções de "atitudes" e gavetas, não ... eu estava em outra. Aliás, até hoje !
Essa trilha, esse piano, nunca mais sairam do radar do meu imaginário...cliquem na imagem... para entender o Guilherme.
Tem a versão cantada, também imperdível, com cenas do filme, Michel Piccoli e Romy Schneider vivendo um grande amor ...
...e de quebra, ainda tem a filmagem da Romy Schneider cantando super bem e emocionada ...
E, junto com ela o incrível ator Michel Piccoli, declamando partes do poema ...
Que momento ...
Olhem se não é mesmo para sermos nostálgicos ... que mal há na nostalgia ?
Por que as pessoas que querem ser "modernas" insistem no discurso vazio de apenas "viver o presente" ...
Ora, eu vivo o presente, sim, vivo um grande amor desses de cinema, sim, e até crio músicas inacreditáveis neste presente mágico, que me transportam para o tempo que eu quiser !
Estou lá, naquela sala vazia de cinema, até hoje .
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