Escandalo e sucesso
- Guilherme Arantes

- 11 de jun.
- 3 min de leitura
Hoje vou tentar tecer um raciocínio muito pessoal sobre o papel do "componente escandaloso" na construção das personas artisticamente "extraordinárias" que povoam o imaginário popular, e mais especialmente frequentam o repertório cristalizado ...nas mentes formadoras de opinião, construtoras das "lendas" míticas da indústria cultural.
A maioria dos "ídolos" do século XX (considere-se aqui o fenômeno "indústria cultural") têm componentes bizarros, muitas histórias obrigatoriamente apimentadas pelo jornalismo, em que a notoriedade, o carinho público, a "curiosidade voyeur" da fama acabam construindo biografias pontuadas pela imaginação fértil das "pessoas comuns", o público, suas muitas projeções de desejos inconfessos, costumes proibidos, significados ocultos, não raramente extrapolando para episódios caricatos em comédia e (até) em tragédia...
Prestando um pouquinho de atenção nos mitos do Século XX, tempo de invenção da indústria cultural, tendo o jornalismo como ponta-de-lança, nos deparamos com a proliferação de biografias espetaculosas, pródigas de episódios-gancho-de-pauta, não raro vitaminados por um voyeurismo pessoal, a imaginação do narrador vindo amplificada pelas lentes do exagero, pelas projeções de expectativas de que uma narrativa apimentada possa tornar o personagem o mais interessante possível, e o mais surpreendente, prendendo a atenção do público, em contraposição a uma vida prosaica, comum e careta , a monotonia enfadonha da razoabilidade de qualquer cotidiano...
Prestemos atenção nos personagens de maior destaque, veremos que são majoritariamente marcados por episódios absurdos, em que os recalques ocultos e as inconfessas impotências limitadoras do público comparecem como um sopro de vento nas brasas ardentes dos ídolos em imolação e martírio, com suas glórias e fardos da fama, suas perdas, seus tropeços, patologias, vícios, dramas e ... comumente tragédias, saboreadas como efeitos colaterais do sucesso ...
É uma galeria de falsos mitos assim.
Porque o dia a dia nunca faz parte das histórias, o cotidiano comum é uma espécie de matéria-escura no Universo dessas estrelas no almanaque barato do imaginário popular ...
Vou então, só pra variar, e ser mais transgressor da ordem estabelecida pela tal modernidade, visitar, no Século XVII, um personagem que é provavelmente o meu maior ídolo e exemplo, o meu querido Johann Sebastian Bach.
O que há de espetaculoso e de bizarro naquela vida monótona de KapellMeister em Leipzig, além da sua incontável prole, uma filharada numerosíssima, mantida com dignidade por um gênio monumentalmente operoso e extremamente prolífico, que compunha sem parar... (acho que... com o mesmo fervor com que fazia amor ) ...músicas magistrais, e sem apostar um níquel ( ou uma semifusa ) na fama e nas badalações e excessos palacianos da época ?
O imaginário popular é então povoado daqueles personagens bizarros recorrentes, como se as vidas momentosas e espetaculosas fossem as mais virtuosas e interessantes, sob o aspecto jornalístico-mundano, o que é uma falácia, uma bobagem completa. Visito um outro personagem, o magistral poeta Carlos Drummond de Andrade, que viveu uma vida absolutamente discreta, elegante, simples e sem fazer dessa vida um circo de horrores , ou o enredo patético de um desfile de aberrações, para preencher o almanaque careta da transgressão como regra.
O Século XX fabricou, entre as suas mistificações mais recorrentes, a idéia da vida virtuosa como o paradigma do "burning flame" .
Já seguindo mais adiante, este novo milênio inventou os novos parametros de sociedade, com as redes descortinando novos padrões para a opinião popular se manifestar. Hoje, para viralizar e para dar "engajamento", a primeira preocupação é chamar a atenção, fisgar o like, capturar o view, a qualquer preço.
As novas camadas de celebs são todas bizarrinhas, é um vale-tudo para despontar no meio da proliferação de comportamentos aberrantes, então o que um dia foi ousadia comportamental, favorecendo a mitificação através da coragem de "aparecer diferente", hoje se torna geral, mandatório, numa obediência de transgressão.
Virou caretice. Todo mundo quer "se vender diferentão" ...no sense... só pra enganar algoritmo.
Virou uma bobagem, o bizarro, o circo de excentricidades acabou ficando comum e maçante.
Não sei não ...
Prestemos atenção nas pessoas comuns.
Quantas delas, apenas na labuta de sua lavoura sem alarde, sem palhaçada de ego desmesurado, transformaram de fato este Mundo, e também deixaram a marca da verdadeira genialidade ?
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