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Pendurar Chuteiras

  • Foto do escritor: Guilherme Arantes
    Guilherme Arantes
  • 11 de jun.
  • 3 min de leitura

Pra quem se interessa em saber, estou muito longe de "pendurar as chuteiras", provavelmente nem mesmo a passagem para outra dimensão me faria me aposentar.

Tenho muito a dizer, a esse respeito.

Porque exatamente as pessoas "se aposentam" , "penduram as chuteiras", dizem um "basta " na carreira ?

O que é exatamente encerrar uma carreira ?

Porque as pessoas declaram para o mundo :

"Para mim, chega ! ... Cansei."

Encurtando a resposta, é parar de sonhar.

O que cansa não são os shows, as viagens, os ensaios, as gravações, os programas de rádio, de TV, as entrevistas, etc., etc.

O que cansa mesmo é sonhar.

É projetar na arte uma ilusão de que a arte seja necessária para o mundo.

Que a Arte é necessária para nós, não resta a menor dúvida.

O problema é o artista manter viva a noção de que aquilo que o move também poderia mover o mundo.

O Biscoito Fino que o Oswald fabrica não cansa.

O que cansa, exaure, esgota, arrasa, leva à loucura, pode levar à miséria, pode até matar... é a outra parte da frase de Oswald.

Que a massa um dia provará.

É disso que se trata a desistência, a capitulação do pendurar as chuteiras.

Existe dentro do artista uma chama perigosa de natureza coletiva. A manutenção dessa esperança gregária, dentro da alma, custa muito caro, cobra um preço que às vezes, para alguns, é escorchante.

Eu nasci fazendo música.

Menino, via brotarem sozinhas as musicas nos meus dedinhos no piano, as melodias soavam espontaneas dentro da minha cabeça, como se fosse um radinho transcedental, soprando frases e versos sem que eu fizesse esforço nenhum...

Eu brincava de compositor.

A musica era um dom lúdico, e eu me espelhava num mundo que pipocava música por toda parte, haviam modas e bossas, os Sambas-Canção, as praieiras de Caymmi, a bossa nova, a Jovem Guarda, Ray Charles, Stevie Wonder, Jorge Ben,

Beatles, Stones, Dylan, Simon & Garfunkel, Cat Stevens, Chico, Milton, Taiguara, Caetano e Gil, tudo brincando em mim, nas festinhas do colégio e reuniões de família, nas ruas, por onde eu fosse, tudo era música, música, música.

Nunca questionei esse dom lúdico dentro de mim,eu era estudante, jovem, era natural da minha personalidade, e os amigos se divertiam comigo, me atribuiram muito cedo esse papel na turma..

Um dia, profissionais gostaram do biscoito que eu também fabricava, e eu passei a fazer parte da galeria de nomes que eu cultuava, virei um deles...

Hoje, já faz 50 anos esse "virar um deles".

Passei a ter uma condecoração chamada "sucesso"

Décadas se passaram, e eu me acostumei com a condecoração. Mais tarde, cairia a ficha .

Porque mais tarde me perguntam sobre este tempo de se aposentar, que "eu não preciso mais provar nada a ninguém ... "

Como assim ? Precisar provar para alguém ... é uma visao equivocada...as pessoas fazem coisas por isso ?

O sonho não é ser percebido. O sonho é. Apenas.

Mas eu mesmo me faço essa pergunta, quando é o tempo de parar ?

Parar o quê, exatamente ?

E aí vem a resposta, crua e cruel : parar de sonhar.

Um artista jamais estará aposentado enquanto não estiver cansado de sonhar.

Muitos, pelo contrário, já estão mortos, sepultados, por mais que estejam em plena atividade pública.

E com grandes condecorações de sucesso !

É isso mesmo ?

O pior é que é.

Vou explicar :

A atividade artística (...ao menos para pessoas parecidas comigo) tem duas vertentes, uma delas depende de ser alimentada pela chama do sonho.

O sonho, o delírio criativo.

Esse exaure. Consome. E faz correr todos os riscos, principalmente da desatenção e do desinteresse de um mundo focado na condecoração. O "sucesso" .

A outra vertente é pragmática, mecânica e automática: é seguir se repetindo eternamente e colher os louros da fama e da grana sem muito questionamento, é viver do sucesso.

Esta vertente cansa também ? Sim. Mas é diferente, porque oferece a gratificação imediata do aplauso e da conta bancária.

É menos nobre, por isso ?

Não necessariamente.

Cada um escolhe o que lhe agrada mais.

Chopin se torturava em busca do "sublime" ...não se contentava em ser atração aristocrática na Sala Pleyel em Paris, divertindo casacas, cartolas, tafetás, carruagens, charutos, piteiras e absintos.. e partiu para Marbella para fazer seus prelúdios para a Eternidade. Cada um, cada um.

Eu adoro Chopin.

Estou 100% compositor, me esmerando em sonhar... mas mergulhado nesse universo de questionamentos.

Querem saber ? Estou adorando !

É por isso que posso afirmar que nunca, em toda a minha trajetória, estive tão longe de "pendurar as chuteiras".

Voilá !

 
 
 

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